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Cintos que se cruzam - Por que eles são legalmente possíveis no Brasil?

Norma ABNT permite que cintos de segurança interfiram uns com os outros, algo questionável do ponto de vista da ergonomia


O problema é antigo, mas um dos lançamentos mais recentes da indústria, o Renault Kwid, nos deu a oportunidade de tocar no assunto. Apesar de estreitinho, o subcompacto da Renault é um carro homologado para transportar 5 pessoas, tanto no Brasil quanto na Índia, onde foi projetado. Só que o cinto do meio, abdominal, cruza com os dois cintos de três pontos laterais. É possível notar isso, nas fotos desta reportagem, pela posição da lingueta do cinto central. Se ela estiver, de fora para dentro, antes de um dos engates, exigirá o cruzamento. Algo que, em uma situação de emergência, pode atrapalhar a saída do veículo, em caso de acidente, além de exigir muita intimidade com quem se senta a seu lado para permitir que você engate o cinto sem parecer assédio sexual. Os engates têm tiras curtas, que impedem que os passageiros os descruzem, por exemplo.

 

"Em termos de segurança, o perigo é haver uma cadeirinha de criança instalada ao lado de quem se sentar no meio do carro, por exemplo", disse à KBB Alejandro Furas, secretário-geral do Latin NCAP, durante o Congresso SAE 2017. "No caso de haver outras pessoas sentadas ao lado, o acesso fica apenas mais difícil, mas não é impossibilitado, já que não há elementos rígidos no caminho como há no caso das cadeirinhas. Só o constrangimento."

Cintos traseiros que se cruzam - Renault Kwid

O mesmo acontece com os Fiat Mobi, Uno e Palio e com Hyundai HB20, mas não com Toyota Etios, Chevrolet Onix (que peca pela nota 0 no Latin NCAP) e VW up!, por exemplo. Este subcompacto, do mesmo porte de Mobi e Kwid, tem espaços para uso dos cintos traseiros muito bem definidos. Afinal de contas, por que há fabricantes preocupadas com essa questão e outras que não se importam com a ergonomia do banco traseiro de seus veículos?

4 lugares? Nem pensar...

Para começar, é preciso pontuar as exigências do mercado. Carros com apenas 4 lugares são mal vistos no Brasil. Basta lembrar do que aconteceu com a primeira geração do Ford Ka. O projeto nacional do carro, considerado a segunda geração do modelo por aqui, tinha apenas duas portas, mas 5 lugares. Também com cintos que se cruzavam. Diante disso, há empresas que investem mais para criar um espaço individual para cada ocupante do banco traseiro, provavelmente com projetos mais caros, e aquelas que simplesmente atendem o que a legislação sobre o assunto exige.

Cintos traseiros que se cruzam - Fiat Mobi

"Este é um recurso comum em carros com espaço limitado de modo a atender a distância mínima legal entre os pontos de ancoragem (fixação) conforme regulamentação (ECE R14/NBR 6091). O que pode ocorrer é que esse cruzamento pode ser feito de maneira que gere maior ou menor desconforto ergonômico, dependendo do projeto de cada veículo", disse a AEA (Associação Brasileira de Engenharia Automotiva) em comunicado oficial ao questionamento da KBB.

Não há, portanto, nada de ilegal nos cintos traseiros que se cruzam, mas a ergonomia vai para o vinagre. "A verdade é que esses veículos são muito estreitos. Pelo menos quando se fala em três ocupantes. Ninguém deveria ficar em um carro apenas com um cinto abdominal, então nunca se deveria ter uma situação em que os 3 cintos traseiros estejam em uso", disse Matthew P. Reed, chefe do departamento de Biociências da University of Michigan Transportation Research Institute e especialista em ergonomia automotiva, à KBB. "A vantagem de um cinto abdominal no centro é poder instalar ali uma cadeirinha infantil. A criança fica mais segura no centro do que nas laterais pelo menor risco de impacto lateral. Claro que, com a cadeirinha instalada, será difícil os passageiros dos assentos subjacentes usarem seus cintos. É aqui que eu realmente vejo um problema. Se o passageiro decidir não usar o cinto por conta da dificuldade em afivelá-lo com um assento infantil no centro do banco, isso representará um risco de segurança indesejável."

Cintos traseiros que se cruzam - Renault Kiwd

Reed nos deu as respostas sem saber como as coisas são deste lado do Equador. Sem conhecimento, por exemplo, do acidente provocado na Imigrantes por um Mercedes-AMG CLS 63 em 9 de janeiro deste ano. Ele bateu em um Ford EcoSport com 8 pessoas, 4 adultos e 4 crianças. Duas mulheres, Juliana do Carmo Gamarra e Vitória Alves, morreram devido ao acidente. Assim como os outros carros mencionados nessa reportagem, o EcoSport tem lugar para apenas 5 pessoas. O motorista do Mercedes, André Micheletti, estava com a CNH suspensa até junho deste ano, com 106 pontos causados por multas. O do EcoSport, André Gonçalves, também estava com a CNH cassada.

Mais realista do que o rei

A triste verdade é que o problema dos cintos traseiros cruzados não incomoda porque as pessoas nem usam os cintos no banco traseiro. E querem um carro que leve 5 ou 7 pessoas apenas para não serem multadas por transportar mais gente do que o permitido. Oito em um carro para cinco, como se vê no lamentável episódio que citamos acima.

Cintos traseiros que não se cruzam - VW up!

Em um ambiente desses, discutir como se deve transportar crianças em um carro, se a segurança oferecida pelos veículos brasileiros é suficiente ou se os cintos de segurança destes veículos oferecem o melhor tipo de operação pode soar a querer ser mais realista do que o rei. Mas é papel do jornalismo informar e apontar o que não está correto. Ainda que, por vezes, isso seja apenas pregar no deserto. Vai que, um dia, esse deserto deixa de matar mais de 40 mil pessoas por ano? Pode ser que ajudemos a quebrar o preconceito contra carros com apenas 4 lugares, desde que eles sejam os mais seguros que se possa ter. E que sejam usados dentro de suas capacidades. Ou que consigamos que os compradores de carros prestem a esse tipo de detalhe, principalmente se transportarem pessoas no banco traseiro com frequência. Se pudermos contribuir para isso de alguma forma, seja como for, valeu a pena.

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